Bandeira do Brasil hasteada
Política e Sociedade

Não vou parar de me indignar!

IMAGEM: http://www.colegioportorico.com.br/guinness-book-a-maior-bandeira-hasteada-no-mundo-e-brasileira/

A verdade é que roubaram de nós a esperança e as forças de acreditar que as coisas podem melhorar. A verdade é que estamos doentes de Brasil.

Eliane Brum, em um texto publicado no El País em Agosto deste ano, expôs de forma muito clara sobre a doença de Brasil. Não está fácil viver em um país em que somos violentados todos os dias pelo dirigente da nação. O ambiente é tóxico em vários aspectos: desde a nossa comida que vai se tornando menos saudável com tantos agrotóxicos liberados até o campo psicológico, com as falas absurdas que temos de ouvir.

Alguns mese atrás, antes mesmo de se consolidar o que se desenhava, que era a vitória de Bolsonaro, decidi passar a me preocupar mais comigo e deixar um pouco de lado as questões públicas e sociais. Pelo bem da minha sanidade. Decretei que eu já havia visto muita coisa, mesmo apesar de minha pouca idade, e que nada mais seria capaz de me indignar – já conhecera a maldade humana em suas mais diversas faces. Ou seja, eu me cansei de me surpreender com o mal.

Há alguns dias, no entanto, comecei a ler Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, autor que sempre tivera vontade de conhecer. Mesmo nas primeiras páginas, percebi seu otimismo diante das coisas. E todo esse otimismo, confesso, me incomodou, afinal, viver nunca foi fácil.

Freire chama a atenção para o fato de que o capitalismo contemporâneo vem nos tornando resignados para com a realidade: fazem-nos acreditar que ela não pode mudar. E que crueldade! Roubar nossa esperança é nos tornar mortos perambulantes na vida.

Agora vejo que não posso deixar de me indignar. Não posso parar de me supreender com as palavras e ações do rei do Brasil. Não posso deixar de repudiar os seus apoiadores cegos pela fé. Não quero parar de contestar a religião cujo deus autoriza a submissão eterna e silenciosa dos pobres. Não vou parar de questionar o governo das elites, que exclui e elimina as minorias. Não porque seja fácil, mas porque é necessário.

Porque talvez indignar-me seja uma singela manifestação de revolta, mas que por ser tão pessoal, não posso permitir que matem em mim. Afinal, indignar-se e incomodar-se é o primeiro passo para causar mudanças.

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Política e Sociedade

Incômodos filosóficos com a tecnologia

Nos últimos quatro anos e meio, me ocupei com os estudos em Ciência da Computação. Uma das coisas que sempre me incomodou foi a falta de preocupação dentro da academia em discutir as implicações sociais dessa Ciência. Isso é deixado apenas para a Filosofia.

O interessante é que as principais preocupações, quando discutidas nas salas de aula, gravitam em torno da privacidade e seu mau uso pelo marketing. Notoriamente, o uso de nossas informações pessoais para publicidade personalizada é a menor das questões quando se trata das implicações da tecnologia para a humanidade. Será que as omissões são propositais para se evitar tratar do futuro e suas possibilidades aterrorizantes? 

Já é bastante consensual que a ciência tornou-se instrumento do capitalismo para construir avanços que fizessem o capital prosperar cada vez mais. Algo um pouco mais sutil é que o projeto da ciência é a imortalidade do homem, como mencionado em “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade” por Yuval Noah Harari. Ora, mas será que a mortalidade não pode ser encarada como condição sine qua non do ser humano e, dessa forma, dar fim à morte seria o mesmo que dar fim à condição humana?

Quanto a nossas informações, para muito além do marketing, elas podem ser utilizadas — como já vêm sendo — para outros fins. Utilizar desses dados é extremamente útil para conduzir processos políticos e para estabelecer uma dominação maior sobre as pessoas, por exemplo. Logo, estamos em uma época em que quem tem mais dados, tem mais poder. A empresa, portanto, mais poderosa do planeta (e que provavelmente continuará sendo até o fim dos tempos) chama-se Google. As informações dos usuários que são sabidas pelo Facebook são ínfimas perto das informações que a Google sabe. Alguém nos conhece melhor do que a Google? E conseguimos imaginar como a Google pode utilizar todo esse conhecimento?

Outra questão interessante é que a tecnologia agora vem permitindo até alterarmos a própria espécie humana. Já temos bastante conhecimento sobre manipulação da genética (os coelhos fluorescentes que o digam). Ou seja, talvez já sejamos capazes de construir seres humanos sob medida. Além disso, um dos projetos prioritários da ciência hoje é: como conectar o cérebro humano a um computador? A partir dessas duas observações é perfeitamente possível inferir que o ser humano está com os dias contados. Se formos capazes de nos conectarmos a máquinas, não precisaremos mais de corpos humanos, aliás, máquinas podem durar muitos mais do que qualquer corpo humano; câmeras podem capturar imagens melhor do que olhos; metal é muito mais resistente do que a pele.

Alguma parte disso é especulação do futuro. E talvez estejam certos aqueles que não se ocupam tanto com o que virá. Aliás, o presente já tem suas atribulações e o eu do futuro é muito mais sábio do que o eu do presente. Mas é importante que pensemos nas implicações de nossas ciências, a fim de que o conhecimento, de alguma forma, mude o nosso proceder.

Poemas...

eu sandeu

mesmo sabendo que você não me quer
mesmo sofrendo por sua causa, mulher
não consigo te esquecer,
não posso me deter,
eu sandeu.

e como dói não ser visto
como arde a vontade ao vê-la; instinto
eu queria ser como os outros e te deixar…
procurar qualquer outra aqui, acolá.
mas não tiro você do meu peito.
eu sandeu.

mesmo que você não tenha me querido
eu faria tudo novamente, tenho dito
a dor que você trouxe,
e que dói até hoje,
me fez bem (!)
homem crescido,
mais forte também.

mas afinal, gosto de minha sandice.
nunca quis mesmo estar nessa lama moderna: imundície
que tu encontres um bom homem por companheiro,
se não eu,
outro sandeu!

Política e Sociedade

Oração diária pelo Brasil

Em nome de Jair Pai, Eduardo Filho, Carlos-Flávio, Amém.

Iniciemos a oração diária pelo Brasil.

Jair, que cada vez mais Vós governeis com vossa sagrada sabedoria o país. Nós, Pai Jair, muitas vezes achamos que vossas ações nos conduzem ao abismo, mas somos tolos e frágeis e só o Senhor sabe o que é melhor para nós, absolutamente ninguém mais.

Esmague, ó Pai, os professores e as escolas, que estão desvirtuando nossos filhos. As universidades públicas, o Senhor sabe, querem levá-los aos caminhos sombrios das trevas, que são obra do PT.

Eliminai, ó Senhor, toda aquela mídia que prega contra o vosso reino. Apenas os que são a favor do vosso projeto de luz devem sobreviver.

Faça-nos esquecer também, grande Jair, toda a falácia dos problemas ambientais. Somos imensamente gratos porque Vós vindes nos abrindo os olhos. Se é para nosso bem, que se derrube a Amazônia e que ajudemos a abrir mais buracos na camada de ozônio.

Que a nossa justiça, Pai, seja só as vossas palavras. Não precisamos de leis quando temos vossa sabedoria. Que vigorem apenas os juízes que comungam de vossos ideais.

Queremos pedir também, Senhor Jair, que a vossa luz se espalhe pelos quatro cantos do mundo. Que vossos filhos sejam embaixadores de vossos pensamentos por todo o planeta e levem vossos ensinamentos até os confins do universo.

Te pedimos perdão, ó Sábio, por, às vezes, desacreditarmos em Vós e por não compreendermos vossas palavras por causa de nossa ignorância e de nossas limitações. Mas que a nossa existência seja para Vos servir.

Livrai-nos sempre das influências de nosso inimigo, o PT, que sempre nos leva a fraquejar e virar à esquerda.

Brasil acima de tudo, Jair acima de todos.

Amém!


Só para registrar: isso foi beeemmm irônico.
Deixe um comentário pra gente! Vamos adorar lê-lo! 😀

Resenhas

Reflexões de “O Velho e O Mar”

“O Velho e O Mar” é uma das consagradas obras do norte-americano Ernest Hemingway, autor ganhador do Nobel de literatura de 1954. Esse livro ganhou até uma versão em desenho animado.

Santiago é um velho que outrora fora um grande pescador, mas que não conseguia pescar nada há vários dias. Ele tinha um jovem amigo que o admirava bastante: Manolin. Manolin gostava de pescar com ele, porque reconhecia suas habilidades e queria aprender. Seus pais, no entanto, o proibiram de sair com o velho para a pescaria, uma vez que acreditavam que ele estivesse numa onda de azar. Então, Santiago parte para uma pescaria solitária, que durará alguns dias e trará muitas reflexões solitárias, que será o principal enredo do livro.

O que temos para agir agora?

Sempre vivemos o dilema de querer ter algo que não temos e de ser o que não somos. Essa é a grande sina humana.

— Gostaria de ter uma pedra para afiar a faca – disse o velho depois de examinar os nós da ponta do remo. – Devia ter trazido uma pedra. ‘Sim, você devia ter trazido muitas coisas’, pensou. ‘Mas não as trouxe, velho. Agora não é o momento de pensar naquilo que você não tem. Pense antes no que pode fazer com aquilo que tem.’

O que podemos fazer com o que temos agora e com o que somos? Essa é a questão que precisa ser resolvida na pescaria. Não adianta, muitas vezes, trabalhar com projeções, porque temos que agir hoje.

Arrisque-se

Uma pequena ave pousa na vara de pesca de Santiago. Ele, solitário, conversa com ela, que apareceu inesperadamente, bem longe de terra firme e recomenda:

— Repouse bem, pequena ave – aconselhou o velho. – Depois siga viagem e arrisque-se como qualquer homem, pássaro ou peixe.

Arriscar-se é parte da vida. Arriscar-se é sair do conforto e tentar algo novo. Mudar não é fácil, mas necessário. Muitas vezes é preciso parar para descansar, mas continuar a aventurar-se é fundamental.

Sorte depende de trabalho

‘Mas,’ pensou, ‘eu as mantenho [as varas de pesca] sempre na mesma profundidade. O que aconteceu é que acabou a minha sorte. Mas, quem sabe? Talvez hoje. Cada dia é um novo dia. É melhor ter sorte. Mas eu prefiro fazer as coisas sempre bem. Então, se a sorte me sorrir, estou preparado.’

Esperar pela sorte não foi a opção de Santiago. Ela pode vir, mas se não houver preparo, pode não ser muito útil. Sorte também é trabalho. É preciso estar sempre preparado, pois o peixe pode aparecer a qualquer momento.

Pescar e sofrer ou nem ir à pesca?

Depois de alguns dias, Santiago pesca um grande peixe, maior que o próprio barco. Por seu porte, não é possível puxá-lo para a superfície. A opção é deixar o peixe conduzir o barco pelo anzol que está preso em sua boca até a hora que ele quiser aparecer. Quando finalmente Santiago consegue matá-lo, prendê-lo ao barco e já está a caminho de casa, tubarões atacam o pescado e o comem aos poucos.

— Deve ter levado um quarto do peixe e da carne da melhor parte – disse em voz alta. – Gostaria tanto que isso tudo fosse um sonho e que nunca o tivesse pescado. Tenho muita pena de você, meu peixe. Não queria que as coisas se passassem assim.

Ou seja, completamente desgostoso com sua situação, ele começa a desejar que nada daquilo tivesse acontecido. A vida, como a pescaria de Santiago, traz realmente várias dificuldades. Mas e o quanto as experiências fazem crescer? E o que elas trazem de bom?

O garoto Manolin vê as coisas por outra perspectiva. Ao rememorar o fato de não ter convidado um ídolo do beisebol dele e de Santiago para uma pescaria quando tiveram oportunidade, observa:

— Lembro perfeitamente. Foi um grande erro. Dick Sisler era bem capaz de ter querido vir conosco e então íamos ter essa lembrança boa pelo resto da vida.

Para Manolin, as lembranças que ficam são mais importantes do que as dificuldades enfrentadas. Ou seja, mesmo que as coisas sejam difíceis, as lembranças que vão deixar valem a pena.

Para fechar com uma intertextualidade, o trecho da música My Way, do cantor Tom Walker também dialoga com os aprendizados discutidos. (https://www.youtube.com/watch?v=nqnkBdExjws):

We only get one life, so make this life beautiful
One chance to make it worthwhile
Just be alive, the story could be glorious
Beginning to the finish, long as I can say I did it
My way, my way
My way, my way
Nós só temos uma vida, então faça essa vida linda
Uma chance de fazer valer a pena
Apenas esteja vivo, a história poderia ser gloriosa
Começando até o final, desde que eu possa dizer que fiz isso
Do meu jeito, do meu jeito
Do meu jeito, do meu jeito

Fonte: Letra e tradução (https://www.letras.mus.br/tom-walker/my-way/traducao.html)


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Poemas...

Viver

O único motivo
para se viver
se torna, com o tempo,
vingar-se da própria vida.
Vivemos apenas para
pirraçá-la.
Vivemos apenas porque
a morte seria desistir.
Seria deixar a vida vencer.
Viver é resistir.
Apesar de a vida não
nos querer vivos,
permanecemos respirando.

A vida bate.
A vida humilha.
A vida mutila.
A vida desagrada.
A vida maltrata.
A vida agita.
A vida agride.
E permanecemos de pé.

Não porque vale a pena.
Mas porque não queremos rendição.
Resistir à pressão:
o único motivo que mantém a vida plena.


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Resenhas

Resenha: O Consagrado Defensor

Inaugurando hoje as minhas resenhas com um livro bem alternativo, não main stream! O Consagrado Defensor é um livro de 1997, escrito por Túlio Cícero Viana, pela editora Líttera Maciel Ltda.

Na verdade, a obra é autobiográfica e conta a história do autor durante alguns anos de sua juventude. No contexto da Ditadura Militar brasileira, Túlio começa a estudar na Universidade Federal de Ouro Preto, mas logo percebe que seu espírito pedia outros tipos de aventura.

Com um novo amigo, Dácio, parte para o Acre. Vão morar na comunidade religiosa Cinco-Mil. Nesse lugar, a religião é o Santo Daime, que reúne elementos de várias matrizes diferentes, como o Cristianismo, e faz uso de um alucinógeno – o ayahuasca, ou chá do Santo Daime, nos seus rituais. Busca-se com essa bebida acessar o mundo espiritual e, através disso, evoluir enquanto ser humano.

A comunidade na qual o personagem/autor vive tem uma hierarquia bastante definida e rígida e tem-se que sobreviver às custas do próprio suor. O trabalho não é nada leve.

Mas não tarda muito para que Túlio comece a criticar em seus pensamentos a hierarquia ali estabelecida, que, baseada na fé, subjugava os seres humanos. Esse conflito interno que se constrói terá que vir à tona em algum momento. Logo, ele propõe uma reorganização da doutrina – a Nova Revolução – para que se dê menos valor aos aspectos formais e dogmáticos e mais valor ao ser humano, que mesmo na busca de um crescimento espiritual, jamais deixará de ser humano e de necessitar de tudo o que essa condição impõe.

O mais interessante, no meu ponto de vista, é justamente a ideia de que em qualquer sociedade humana – aqui pode-se entender sociedade como qualquer grupo de duas ou mais pessoas – há relações de poder. Dentro da Ciência Política, mais especificamente na Teoria das Elites, a Lei de Ferro das Oligarquias, primeiramente enunciada por Robert Michels, diz que em qualquer agrupamento humano se formará uma oligarquia, ou seja, um grupo mandante. E, como o personagem atesta na própria carne, romper essas oligarquias e, portanto, o poder estabelecido não é tarefa fácil.

O livro também é interessante por apresentar elementos dessa manifestação religiosa , que é o Santo Daime, que foi criada no Brasil. Dialogar com o contexto brasileiro e permitir que se estabeleça um comparativo histórico da comunidade mencionada é bastante interessante. Aliás, hoje há várias denúncias de crimes ocorridos dentro da comunidade Cinco-Mil. Será que se a Nova Revolução proposta pelo Túlio tivesse de fato acontecido as coisas teriam sido diferentes? Nunca saberemos.

Quanto aos aspectos linguísticos, a obra deixa a desejar, sendo esse o seu ponto fraco.

Por fim, essa leitura é bastante agradável e cativante, levando o leitor a viajar e sentir junto com o personagem/autor toda a sua história. Vale a pena conferir!

“A humanidade carece de mais homens e menos heróis” – Túlio Cícero Viana


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