Política e Sociedade

Incômodos filosóficos com a tecnologia

Nos últimos quatro anos e meio, me ocupei com os estudos em Ciência da Computação. Uma das coisas que sempre me incomodou foi a falta de preocupação dentro da academia em discutir as implicações sociais dessa Ciência. Isso é deixado apenas para a Filosofia.

O interessante é que as principais preocupações, quando discutidas nas salas de aula, gravitam em torno da privacidade e seu mau uso pelo marketing. Notoriamente, o uso de nossas informações pessoais para publicidade personalizada é a menor das questões quando se trata das implicações da tecnologia para a humanidade. Será que as omissões são propositais para se evitar tratar do futuro e suas possibilidades aterrorizantes? 

Já é bastante consensual que a ciência tornou-se instrumento do capitalismo para construir avanços que fizessem o capital prosperar cada vez mais. Algo um pouco mais sutil é que o projeto da ciência é a imortalidade do homem, como mencionado em “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade” por Yuval Noah Harari. Ora, mas será que a mortalidade não pode ser encarada como condição sine qua non do ser humano e, dessa forma, dar fim à morte seria o mesmo que dar fim à condição humana?

Quanto a nossas informações, para muito além do marketing, elas podem ser utilizadas — como já vêm sendo — para outros fins. Utilizar desses dados é extremamente útil para conduzir processos políticos e para estabelecer uma dominação maior sobre as pessoas, por exemplo. Logo, estamos em uma época em que quem tem mais dados, tem mais poder. A empresa, portanto, mais poderosa do planeta (e que provavelmente continuará sendo até o fim dos tempos) chama-se Google. As informações dos usuários que são sabidas pelo Facebook são ínfimas perto das informações que a Google sabe. Alguém nos conhece melhor do que a Google? E conseguimos imaginar como a Google pode utilizar todo esse conhecimento?

Outra questão interessante é que a tecnologia agora vem permitindo até alterarmos a própria espécie humana. Já temos bastante conhecimento sobre manipulação da genética (os coelhos fluorescentes que o digam). Ou seja, talvez já sejamos capazes de construir seres humanos sob medida. Além disso, um dos projetos prioritários da ciência hoje é: como conectar o cérebro humano a um computador? A partir dessas duas observações é perfeitamente possível inferir que o ser humano está com os dias contados. Se formos capazes de nos conectarmos a máquinas, não precisaremos mais de corpos humanos, aliás, máquinas podem durar muitos mais do que qualquer corpo humano; câmeras podem capturar imagens melhor do que olhos; metal é muito mais resistente do que a pele.

Alguma parte disso é especulação do futuro. E talvez estejam certos aqueles que não se ocupam tanto com o que virá. Aliás, o presente já tem suas atribulações e o eu do futuro é muito mais sábio do que o eu do presente. Mas é importante que pensemos nas implicações de nossas ciências, a fim de que o conhecimento, de alguma forma, mude o nosso proceder.